Sobre amor, vinho e utopias
O que é o amor?
Milênios vão e vêm e a definição exata do que representa essa curta palavra com suas cinco letras é desafiadora de elucidar sob uma perspectiva ampla do tamanho de significado, força e poder que este estado humano é e pode alcançar e desenvolver.
Já vi definições que organizam o contexto do amor em ágape, que é o amor que se doa, o amor incondicional e o amor que se entrega e está relacionado com a perspectiva mais ampla de amor entre as pessoas convivendo em comunidade, com a família ou amigos. Há outra perspectiva que conceitua outra vertente do amor, que é o amor eros, aquele dedicado e intencionado de uma ou mais pessoas para a outra (ou as outras), precedido normalmente de uma ardente paixão ou pulsão sexual.
Ocorre que nem mesmo os poetas mais renomados, embora conseguissem expressar de forma belíssima as nuances desse grandioso estado de ser e existir, fecharam os versos em uma definição exata que venha a corresponder matematicamente os mínimos detalhes do que é de fato o amor. E acredito que nem há essa intenção.
A ciência pode explicar o amor (ou algo que o leva a se manifestar) com todas as questões físico-químicas relacionadas a este evento que acomete as pessoas. De toda forma, não seria suficiente para explicar satisfatoriamente (sob meu ponto de vista), todos os efeitos alavancadores, primários e secundários que o amor pode provocar nas pessoas e no meio que estão inseridas.
Não quero definir amor, pois aqui poderia ser medíocre nessa conceituação, por que o vejo de uma forma tão expansiva e progressiva que não seria capaz de chegar a um descritivo que atendesse carinhosamente toda a grandeza que ele é. Não quero me ater apenas a um contexto científico, ou filosófico, ou sociológico, ou qualquer outra coisa que tentasse explicar, pois poderia correr o risco de limitar algo que não é limitável. Falar de amor é mais interessante e muito mais ainda, é viver o amor em todas as suas extraordinárias formas de ser e existir.
Desde que me entendo por gente, escuto as pessoas com falas sofríveis a respeito do amor, pela questão das intempéries das relações humanas, em que nem sempre o ser amado corresponde às expectativas que o amante possui. Conflitos, quebras de acordo, traições, mudanças de prioridades. Após a volúpia intensidade da paixão, o amor que antes era para sempre, em alguns instantes se acaba, e aí, o sofrimento da quebra de expectativas acomete o frágil coração humano, que em frangalhos, chora a perda daquilo que lhe parecia a melhor experiência já vivida. Eis um grande mercado explorado pela música, o mercado dos corações partidos, ou o mercado dos corações não correspondidos, que é um outro lado da moeda importante salientar nesse aspecto intenso da nossa existência.
Me recordo de uma fala do Renato Russo, que em um show, pergunta para o público: - “Alguém aí, já sofreu por amor?”. O público grita. Ele questiona: “Isso tudo já se apaixonou de verdade?” O público grita novamente. Então ele diz: “Eu sempre faço essa pergunta porque eu não acredito nisso. Eu cheguei a conclusão de que, se o amor é verdadeiro, não existe sofrimento.”
Há uma grande reflexão nessa fala, porque de fato, o amor verdadeiro não causa sofrimento. O que vem a causar tamanho estrago em nossos sentimentos e emoções é de fato a ausência desse amor. São por outros motivos que as pessoas se magoam e as relações se encerram, e o motivo principal não é o amor. Dessa culpa, sobre o amor, não há registro em cartório.
O amor verdadeiro, quando se trata do seu aspecto eros movimentado na progressão de uma união entre as pessoas, é capaz de curar e transformar, evoluir e expandir, mas não se trata de uma equação simples, pois estamos falando de relações entre pessoas, que foram criadas em contextos diferentes, com outra construção de personalidade, vivências e trajetórias, e como cada ser em si é um universo inteiro, há mais detalhes e conectores necessários para o sucesso de uma relação. Mas para o amor verdadeiro, isso são pequenos detalhes, haja visto que o amor verdadeiro não possui preconceitos ou barreiras (nós sim, temos isso e mais um calhamaço de x e questões).
Ao longo do tempo fui construindo meu próprio conceito sobre o amor, buscando tornar prático, como um guia, com a seguinte explicação:
O amor (neste caso, o eros) é quando duas pessoas se conhecem, encontram propósitos e valores que são compatíveis e complementares, e entusiasmadas com a presença uma da outra, decidem empreender juntas na construção de uma casa para compartilharem suas vidas e desenvolverem um ativo, formando assim uma sociedade.
Construir uma casa é um ambicioso projeto, principalmente se tratando das expectativas, gostos e escolhas de duas pessoas diferentes. Como todo projeto, requer muito planejamento, investimento de esforço, tempo, dinheiro e energia.
Primeiro é necessário escolher o terreno, planejar a planta, como a casa será, todos os detalhes para a construção, e claro, qual é o teto financeiro possível para que o projeto seja realidade. A engenharia e a arquitetura estão preparadas para o desenrolar dessa etapa, mas a boa gestão dos sócios é o que fará o projeto ser um sucesso.
Se tem o recurso financeiro, agiliza, se não tem, existem sacrifícios e esforços necessários para que isso seja uma realidade. Com o planejamento e os recursos em mãos, inicia a obra.
A primeira fundação da casa é o planejamento. Após isso, na execução é que se consolida a fundação para então levantar as paredes. É uma grande obra, é o sonho dos sócios e requer supervisão, acompanhamento e dedicação em cada estágio. É preciso visitar a obra, negociar com fornecedores. Haja trabalho!
Haverão desentendimentos que por vezes, podem fazer a obra parar, mas com muito foco a obra será finalizada. Também, como todo projeto, há conflitos, desvios de rota, e também o risco da obra ser embargada ou até mesmo encerrada pelos sócios, caso nada saia como o planejado. E está tudo bem, são dilemas existenciais.
Mas se os dois desejarem e se esforçarem muito ao longo desse projeto, poderão em algum tempo, desfrutar de todo esse esforço juntos. Quando a casa estiver pronta, os móveis no lugar, é hora de pegar as chaves e iniciar essa grandiosa mudança que será um marco nesta união.
Mas não para por aí, porque uma casa precisa de manutenção, reforma, adequações, ampliações ou até, servir de impulso para um próximo passo de investimento. É um projeto de longo prazo e não acontece do dia para a noite. É preciso tempo, e junto com o tempo, o valor monetário e também emocional desse projeto, tende a aumentar.
Observe que tudo isso não é sobre empreender na construção de fato de uma casa.
Sobre o amor ágape, ele não é diferente do amor eros, embora neste primeiro, não há a questão da paixão e desejo ardente sexualmente falando, mas sobre algo mais espirituoso e se manifesta numa proporção muito maior, pelo impacto que infere diretamente no coletivo. Em relação a este, é como o sonho do projeto de construir uma casa juntos, porém, de forma muito mais ampla, pois fala sobre construir uma sociedade justa, empática, solidária e que proporcione a esta e as futuras gerações, a oportunidade de terem qualidade de vida e evolução.
Esses dias, caminhando pelo meu bairro, vi a seguinte frase escrita no alto de um prédio: “Viciado em viver o momento, tipo o vinho, refino com o tempo”. O amor é sobre viver o momento, mas sobre evoluir dia após dia. Por isso, o amor também é como o vinho, bebida tão apreciada e admirada desde os tempos mais antigos, como o cálice da alegria. E existe uma diferença entre vinhos novos e vinhos envelhecidos e quanto ao amor, há um processo similar ao do envelhecimento do vinho:
“Envelhecer um vinho significa permitir que ele amadureça e desenvolva suas características com o tempo, em condições adequadas de armazenamento. Ao contrário da maioria das bebidas, alguns vinhos são produzidos para melhorar em sabor, aroma e complexidade conforme envelhecem.” (Disponível em: https://www.panceri.com.br/)
Vinhos novos e vinhos envelhecidos possuem diferenças claras para um bom degustador.
“Os vinhos novos geralmente exibem sabores mais vivos e frutados, com uma acidez pronunciada e taninos mais presentes. Por outro lado, os vinhos mais velhos tendem a apresentar uma integração mais suave desses elementos, revelando sabores mais complexos e aromas sutis. É como comparar a exuberância de uma fruta fresca com a profundidade de uma fruta seca. Cada estilo tem seu próprio charme e apela para diferentes preferências de degustação.” (Disponível em: https://elitevinho.com.br/)
O envelhecimento, ou seja, o tempo, tem um papel importante para o refino do vinho.
“O envelhecimento do vinho pode ser um sinal de qualidade, pois permite que os sabores se desenvolvam e se harmonizem ao longo do tempo. No entanto, nem todos os vinhos melhoram com o envelhecimento. Alguns vinhos são destinados a serem consumidos jovens, para que sua frescura e vivacidade sejam preservadas. É como comparar uma peça de arte que amadurece com o tempo e revela sua beleza única. Entender o potencial de envelhecimento de um vinho faz parte da apreciação e valorização dessa bebida especial.” (Disponível em: https://elitevinho.com.br/)
O vinho e o amor possuem características interessantemente similares e complementares e o tempo, dá sabor, qualidade, aroma e uma sublime especialidade para ambos. O processo do amadurecimento é o treinamento vivencial da nossa evolução.
Refletir sobre tudo isso na teoria e no conceito parece mais simples do que na prática podendo chegar a ser até utópico. Utopia, do grego “ou + topos” que significa “lugar que não existe”, ela pode ser utilizada para denominar construções imaginárias ou fantasiosas de sociedades perfeitas ou estados felizes e idealistas. Embora de fato, não há como se alcançar a perfeição em todos os aspectos mencionados ao longo do texto, a busca pelo melhor pode ser uma importante oportunidade de evoluirmos de fato.
Podemos falar tudo sobre o amor que temos pelos outros, seja eros, ágape ou qualquer outro termo. Mas o amor primeiro nasce e começa em nós mesmos, de dentro para fora, e assim como o vinho, vai se refinando, valorando na medida que os dias passam.
Acima de tudo, embora nossas mentes estejam complexadas por todo o sistema que vivenciamos e enfrentamos na dura realidade humana, o exercício do amor e do tempo é a chave para o amadurecimento, em nós e no mundo que nos cerca.
Que haja empenho de nos sintonizarmos no amor verdadeiro em cada molécula dessa rápida e temporária existência terrestre, pois o amor é a solução para tudo.
Sobre amor, vinho e utopias: o tempo.
Imagem disponível em: https://entrevinhas.com/amor-e-vinho/#google_vignette


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