Efêmera é a vida: borbolete-se!


Certo dia, em um domingo ensolarado, caminhava e conversava com um amigo e ficamos a observar a natureza e a beleza das árvores que dançavam com o movimento do vento. Haviam muitas borboletas, mas uma delas, era belíssima e rara, carregando em suas asas o número 88. Alguns acreditam que encontrar uma destas, é sinal de sorte e bons acontecimentos. Mas ao chegar na varanda da casa, nos deparamos com uma delas, que pousou e estava ali, parada, inerte. Já não voava, nem se mexia, seu fim havia chegado. Tão simplesmente, ela parou ali e naturalmente, em um segundo, encerrou o seu ciclo, porém continuava intacta e linda. 

Falávamos sobre a existência nesse momento. Meu amigo pegou a borboleta e colocou entre as mãos, me olhou e disse: “a vida é como uma borboleta: efêmera”. Essa frase se repetiu em meus pensamentos por consecutivas vezes, visto a profundidade que carrega consigo. Me fez refletir muito sobre os ciclos da vida e sobre o tempo cronometrado de existência que temos.

Após sair do casulo, uma borboleta vive de 2 a 4 semanas. Parece pouco tempo para nós, mas para ela é tempo suficiente de exercer seu papel na natureza, além de esbanjar beleza enfeitando os jardins mundo afora.

Nós, humanos errantes, em muitos momentos vivemos no piloto automático e não nos damos conta de que tudo o que vemos, fazemos, pensamos é passageiro. Embora alguns de nós acreditem na vida eterna, é algo além do nosso domínio, pois o que podemos ter como certeza aqui nesse plano, é que temos nossos dias contados e um dia, seremos apenas uma foto em um quadro, uma lembrança, uma história. Eis aqui um ponto, sobre saber viver.

E não há motivo para desespero aqui, embora seja muito difícil lidar com a morte, refletir sobre o que ela significa é uma oportunidade para repensarmos nosso presente, nossas escolhas e atitudes, afinal a vida é uma oportunidade fantástica, um exercício do nosso melhoramento como ser, de superarmos nossos egocentrismos ao ponto de entender a importância de nós mesmos para nós mesmos, o que intitulam de amor próprio e o sentido de nós para o todo.

A vida é como um café que tão logo recém passado, se não o apreciarmos a tempo, em instantes esfria. Assim como a semana que passa rápido, os meses que correm acelerados. Em um piscar de olhos, tudo se movimenta, se transforma, se esvai. É como tentar segurar água com as mãos, a vida escorre freneticamente, nem tudo externo a nós está sob nosso controle, mas podemos ter a consciência de que no nosso eu interior, podemos assumir a liderança de nós mesmos e nos guiar rumo ao nosso propósito existencial.

De repente, você se olha no espelho e já começa a ver as marcas da idade, você faz 30, 40, 50 anos. Parece que viver uma vida inteira é muito tempo, se olharmos na expectativa dos anos que nos esperam, mas conforme vamos trilhando a jornada da nossa passagem por aqui, percebemos que ele é curto e limitado. E sendo a vida uma grande oportunidade, ao compreendermos nosso propósito, o que leva tempo e dedicação, podemos enfim encontrar o sentido que nos leva a um novo patamar.

Pode parecer uma conversa motivacional falar sobre propósito, sobre existência ou sobre o sentido da vida, e cada um tem a liberdade de acreditar e refletir sobre tudo isso da forma que considerar mais conveniente. Quando falo de propósito, entendo que não há uma fórmula mágica, ou que é algo que acontece da noite para o dia, ou num insight despretensioso (mas não significa que não possa acontecer desta forma um despertar). 

Porém, de forma geral, o propósito é algo que descobrimos aos poucos, com o tempo e as experiências. Talvez, ele seja vivido e descoberto ao mesmo tempo, pouco a pouco, dia após dia. E o propósito, embora seja um termo utilizado frequentemente pelos influenciadores motivacionais e muitas vezes associados com enormes transformações de vida, de rotina ou da conquista de grandes objetivos (o que também pode acontecer), mas propósito, é aquela chama viva em seu coração que te norteia nas suas tomadas de decisão, te faz seguir, acordar todos os dias, estudar, trabalhar, resolver problemas, se divertir. É algo fluído em nosso viver, mas que se sobressai sobre todas as outras coisas, ligado ao nosso eu superior. O assunto é amplo, podemos tirar aqui inúmeras reflexões, mas deixo aqui uma específica: Por que somos o que somos e fazemos o que fazemos? De onde viemos e para onde estamos indo e o que realmente é importante nisso tudo?

Voltando à questão da borboleta e a comparação com a efemeridade da vida, independente do que está além dos nossos dias terrenos e nossas vidas emaranhadas no complexo sistema social que estamos submetidos, olhar para dentro de nós e extrair o que há de mais valioso é vital. Para se tornar borboleta, antes, é necessário ser ovo, depois larva, e durante um bom tempo casulo. É um ciclo fantástico, que nos leva a refletir sobre as fases que temos na vida até chegar na maturidade, e o mais impressionante é que no nosso caso, o ciclo não termina na fase da borboleta, pois estamos sempre em movimento, às vezes pulsão, às vezes retração, mas sempre em transformação.

Não há o que fantasiar na vivência desses ciclos, não são fáceis. A dor é presente em diversos momentos da vida. Mas por algum motivo, ela pode nos lapidar. Em resumo, atingir o estágio da borboleta é uma tarefa constante de aprendizado e dedicação e no final das contas, acredito que o significado maior por trás disso é, sermos melhores, deixando que o bem e o amor encham nosso coração, por nós e por todos e tudo o que nos envolvem. Assim, caminharemos para um próximo passo de evolução.

Sendo a vida efêmera, borbolete-se!



Fonte da imagem Diaethria eluina (Nymphalidae, Biblidinae): Disponível em https://pt.wikipedia.org/wiki/Diaethria#/media/Ficheiro:Diaethria_eluina.jpg

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